porque escrever mesmo tá difícil, e vai ficar ainda mais...
Sendo assim, para aqueles que precisam, vai aí um conselho de Moska e Martinália...
Por mim, digo que já o ouvi.
E foi bom.
Então... vamos "acordando"
"Vai que já não dá mais pra voltar atrás
Cai que é pra depois se levantar pra mais
Sai que ás vezes não é pra entrar em paz
Ai, amor não pode faltar
Não se esqueça nunca de lembrar
Sempre tão só o quanto se puder estar
Pois solidão é sol que ainda vai brilhar
E novamente vai te iluminar
Sem repetir nenhum lugar…pois é…
A vida vem repartir nosso luar com fé
Bem que podia não findar, não é ?
Nem desistir, nem se cansar
Sim, eu prefiro não calar
Sobre mim, sobre você e o nosso lar
Mas se é o fim do caminho de um sonhar
Assim será
E é bem melhor acordar"
sábado, 24 de outubro de 2009
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
a verdade do momento
Na verdade eu quero escrever, mas não tenho ideias.
Na verdade tenho ideias mas, não gosto delas.
Na verdade gosto delas, mas elas não dizem o que eu quero dizer.
Na verdade elas dizem o que eu quero dizer, mas eu não tenho disposição de pô-las no papel.
Na verdade eu tenho disposição para pô-las no papel, mas não quero fazer isso agora.
Na verdade eu quero fazer isso agora, mas não com essas ideias que eu tenho.
Na verdade a verdade do momento é que eu quero outra coisa agora, que não é escrever, mas tem a ver com você.
Na verdade tenho ideias mas, não gosto delas.
Na verdade gosto delas, mas elas não dizem o que eu quero dizer.
Na verdade elas dizem o que eu quero dizer, mas eu não tenho disposição de pô-las no papel.
Na verdade eu tenho disposição para pô-las no papel, mas não quero fazer isso agora.
Na verdade eu quero fazer isso agora, mas não com essas ideias que eu tenho.
Na verdade a verdade do momento é que eu quero outra coisa agora, que não é escrever, mas tem a ver com você.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
domingo, 27 de setembro de 2009
polêmica na escola: até que ponto se educa com certas medidas?
Opinião.
Na terça feira dessa semana, lá pela hora do almoço, eu estava em casa e, passando pela sala que tem a TV sempre ligada, tive a atenção chamada por uma notícia do Jornal Hoje da Globo.
Na terça feira dessa semana, lá pela hora do almoço, eu estava em casa e, passando pela sala que tem a TV sempre ligada, tive a atenção chamada por uma notícia do Jornal Hoje da Globo.
Diziam que um aluno havia pichado as paredes da escola em que estudava e foi obrigado, pela professora, a pintá-las novamente. Até aí um caso normal. Mas como nenhum caso é meramente normal... a escola havia acabado de ser pintada; fato que ocorreu graças a um sacrifício coletivo de professores, alunos e funcionários no custo das despesas e da mão de obra; fato que agrava ainda mais a situação do aluno. Já a punição imposta a ele foi além da reparação dos danos e o aluno acabou sendo humilhado pela professora conforme mostra um vídeo que foi filmado com o conhecimento de todos, fato que agrava, agora, a situação da professora.
Em termos de ações e reações humanas o que ocorreu foi o seguinte: o aluno resolveu desenhar nas paredes recém pintadas do colégio e a professora, revoltada com o fato, decidiu por fazer o aluno repintar o que havia estragado. Uma atitude válida, em que se percebe, nitidamente, uma intensão de fazer com que o aluno aprenda com seus erros. Seria até uma atitude válida, não fosse a mão pesada com que foi imposto o castigo, já que enquanto o aluno cumpria com a obrigação de pintar todas as paredes que pichou, a professora o chamava de bobo da corte e palhação.
A polêmica gira em torno de diversas questões. Há teóricos da educação que condenam expressamente a punição como medida educacional, quem dirá então ofensas verbais como forma de humilhação. Por outro lado, há quem acredite que fazer o aluno consertar um erro pagando na mesma moeda com que errou é uma das mais legítimas formas de se educar. Há pessoas que apoiam a atitude da professora, e acreditam que o aluno deveria sim pintar a escola e sofrer as consequências de seus atos. Há pessoas que não se conformam com a humilhação a que o aluno foi submetido, e acreditam que a professora deve pagar por seu exagero. Pais de alunos revoltados com o aluno em questão. Os pais do aluno revoltados com a professora em questão. O Mec avaliando a questão. E a questão...
A questão é que medidas meio "lei de talião" podem até ser eficazes como formas de educar, mas devem seguir a risca no que concerne à reciprocidade do ato que deve ser punido. Se se dá olho, deve se pagar com o olho; se se dá dente, deve-se pagar com dente; e não se pagar olho mais dente e por aí vai. O aluno jamais deveria sair impune quando resolveu pichar as paredes do colégio, mas daí a humilha-lo em praça pública já é lhe fazer pagar além do devido.
Difícil avaliar os certos e os errados na história. Difícil avaliar se há certos e errados nessa história. E nem cabe, aqui, fazer esse tipo de julgamento. Acredito que aluno e professora tenham errado. Ele por, numa clara tentativa de brincadeira, ter pichado as paredes da escola. Ela por, numa clara tentativa de educá-lo, ter exagerado a medida. Mas acredito que ensinar ao outro por meio da reparação dos erros que o outro comete é sim uma forma de ensinar. E uma forma de aprender, para ambos.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
uma questão de mudança de gênero
No meio do caminho tinha uma pedra
Tinha uma pedra no meio do caminho
Quando eu ia passando já cansanda
De insistir em um compromisso que já não valia
Vi no meio do caminho uma pedra
Vi uma pedra no meio do caminho
E assim como eu, a pedra me viu
E também como eu, se encantou com o olhar
Mas naquele caminho tinham outras pedras
Mas tinahm outras pedras naquele caminho
Era eu e você cansados do velho
Era eu e você na esperança do novo
Tiramos daquele caminho as pedras
Tiramos as pedras daquele caminho
E trocamos olhares que mais fascinavam
E trocamos palavras que mais interessavam
Mas no meio do caminho surgiu outra pedra
Mas surgiu outra pedra no meio do caminho
E foi inevitável mudarmos de rota
E perdermos de vista o nosso caminho
Porque no nosso caminho vieram mais pedras
Porque vieram mais pedras no nosso caminho
Mas nada disso é importante para a gente
Porque há sempre chama em estrada vazia
E no meu caminho você é uma pedra
E eu sou uma pedra no seu caminho
Porque no seu caminho eu sou uma pedra
Porque você é uma pedra no meu caminho
Tinha uma pedra no meio do caminho
Quando eu ia passando já cansanda
De insistir em um compromisso que já não valia
Vi no meio do caminho uma pedra
Vi uma pedra no meio do caminho
E assim como eu, a pedra me viu
E também como eu, se encantou com o olhar
Mas naquele caminho tinham outras pedras
Mas tinahm outras pedras naquele caminho
Era eu e você cansados do velho
Era eu e você na esperança do novo
Tiramos daquele caminho as pedras
Tiramos as pedras daquele caminho
E trocamos olhares que mais fascinavam
E trocamos palavras que mais interessavam
Mas no meio do caminho surgiu outra pedra
Mas surgiu outra pedra no meio do caminho
E foi inevitável mudarmos de rota
E perdermos de vista o nosso caminho
Porque no nosso caminho vieram mais pedras
Porque vieram mais pedras no nosso caminho
Mas nada disso é importante para a gente
Porque há sempre chama em estrada vazia
E no meu caminho você é uma pedra
E eu sou uma pedra no seu caminho
Porque no seu caminho eu sou uma pedra
Porque você é uma pedra no meu caminho
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
uma gradação
sem nenhum motivo aparente para se ver indiferente
sem nenhum motivo aparente para se ser indiferente
sem nenhum motivo aparente para se ter indiferente
litros, baldes, tonéis de cocô
.
sem nenhum motivo aparente para se ser indiferente
sem nenhum motivo aparente para se ter indiferente
litros, baldes, tonéis de cocô
.
domingo, 16 de agosto de 2009
veio ou não veio?
o bilhete não veio.
mas veio a vontade.
e veio tão sem graça que precisou de outra boca para falar.
e veio tão sem jeito que não sei nem se é pra ficar.
e veio por intermédio de outrem, sem eu já nem esperar.
e veio.
e eu? pra onde?
mas veio a vontade.
e veio tão sem graça que precisou de outra boca para falar.
e veio tão sem jeito que não sei nem se é pra ficar.
e veio por intermédio de outrem, sem eu já nem esperar.
e veio.
e eu? pra onde?
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
antolhos
para não se magoar,
para não magoar ninguém,
existem coisas que é melhor deixar pra lá...
fingindo que não se vê não se sente.
ou se sente menos.
menos.
quanto mais se mexe mais se dói.
mais.
definitivamente,
é melhor deixar pra lá...
para não magoar ninguém,
existem coisas que é melhor deixar pra lá...
fingindo que não se vê não se sente.
ou se sente menos.
menos.
quanto mais se mexe mais se dói.
mais.
definitivamente,
é melhor deixar pra lá...
domingo, 2 de agosto de 2009
propósito de férias
É privilégio de poucos gozar de duas férias ao ano. Os estudantes e professores costumam poder fazê-lo. E como tal, sempre consegui me livrar de qualquer compromisso acadêmico nos inícios meios e fins de ano.
As férias de meio de ano não chegam a ser consideradas férias no estrito sentido do termo. São apenas quinze dias em que você já conhece os compromissos que te esperam no ínicio de agosto mas que pode esperar o tal mês começar para pensar neles. Não são férias, é um pequeno recesso, o qual almejei ansiosa desde a entrada de julho.
O primeiro semestre passou árduo. E de uma maneira tão intensa que nem senti o seu passar pois não havia tempo para parar e pensar. Eu não via a hora dos meus quinze dias de nada para fazer chegarem. E chegaram em tempo de eu ainda nem ter me decidido o que fazer deles.
Viajar. Estudar. Organizar papéis e vida. Fazer exercícios. Beber até cair. Se divertir. Rever amigos. Escrever projeto. Adiantar trabalhos. Ver filmes. Eram projetos...
... que nada!
Logo no primeiro domingo me bateu à porta uma exaustão de ser junto com uma preguiça de existir que não me tiraram de casa.
E resolvi que só pelo domingo, ficaria ali assim: espalhadona na cama, de pijama de flanela o dia inteiro, enrolada feito bolinho em cobertor, olhando a mosca pousada no teto, quietinha, eu e mosca, de cabeça vazia.
E foi tão bom que acabei prolongando o prazer pela segunda, a terça, a quarta e ui.
Mas que perda de tempo!
Tanta coisa importante para fazer, mas são férias.
Tanta coisa que se precisava fazer, mas são férias.
Tanta coisa gostosa para fazer, mas são férias.
E amanhã eu faço, porque a preguiiiiiiiiiça...
Depressão?
Que nada!
Cansaço.
E descobri a melhor maneira de aproveitar o recesso de meio de ano.
Bateria se recarrega com energia de casa.
E espantei a sensação de tédio que insistia em entrar no quarto. E dei mais corda para a exaustão de ser e para a preguiça de existir. E deixei-as entrar e ofereci café com bolinho, sem peso nem culpa.
Descanço.
E no fim do recesso a certeza do propósito cumprido.
quarta-feira, 29 de julho de 2009
Do leite que derrama Chico em seu mais novo romance
Um ancião em uma cama de hospital, uma doença de fim de vida, algumas enfermeiras, uma filha e muitas memórias a serem desfiadas. Esses são os marcantes elementos que compõem a narrativa de Leite Derramado, o mais recente romance de Chico Buarque, publicado no presente ano. Através de um monólogo proferido pelo narrador do texto, ele, que é também o personagem principal desta trama, nos dá a ver as suas memórias familiares, que nos vêm em um misto de desordem estrutural e cronológica típica de lembranças resgatadas em fundo de gaveta.
A narrativa do romance possui um único foco que é a primeira pessoa. O narrador toma forma na personagem do ancião que vai nos contar a história da linhagem de sua família desde seus ancestrais mais antigos até os seus últimos descendentes com os quais conviveu. Logo de início, Chico Buarque joga com a credibilidade do seu narrador, e como conseqüência disso, com a credibilidade das histórias que este conta. Fica a cargo do leitor a decisão de confiar ou não nessas histórias rememoradas, e, por conseguinte, considerar ou não o narrador como confiável.
Muitos são os teóricos que põem em dúvida a credibilidade de um narrador em primeira pessoa, já que entendem que ele narra a história apenas pelo seu ponto de vista. Um exemplo clássico desta dúvida quanto à credibilidade da narrativa em primeira pessoa é o célebre romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, em que o leitor jamais saberá se Capitu traiu ou não Bentinho visto que só se possui uma única versão da estória de amor. O leitor deste romance só tem posse do ângulo de visão de Bentinho acerca dos fatos que são narrados em primeira pessoa por um narrador marcado pelo ciúme, pela desconfiança e pela amargura.
Assim também é o foco da narrativa de Leite Derramado, em que é dado ao leitor apenas um ponto de vista acerca das memórias do ancião que narra a história; o ponto de vista dele próprio. Isso gera um outro fator que pode descredibilizar o narrador do romance ainda mais: o fato deste já ir em idade avançada. É uma questão cultural dos países ocidentais em geral o fato de não se dar crédito ao que dizem os idosos. Isso porque é considerado que, por serem de idade alta, são acometidos por eventuais doenças que podem prejudicar a memória, fazendo com que misturem fatos, datas, situações; e deixando suas narrativas sem crédito.
É dessa maneira que se mostra o nosso narrador. Deitado em sua cama no hospital, ele nos mostra que ocupa aquele lugar em virtude de doenças que lhe foram provocadas por conta da sua própria idade avançada. As lembranças lhe vêm embaralhadas e ele tem plena consciência deste fato, parando, por vezes, a narrativa para mostrar ao seu leitor/ouvinte a confusão da cronologia dos acontecimentos.
Essa consciência que tem o narrador de que suas lembranças lhe vêm embaralhadas, sem uma ordem cronológica dos acontecimentos, pode ser considera como um fator que gera credibilidade a ele. Isso porque essa noção de que a sua memória pode, em alguns momentos, atraiçoá-lo mostra ao leitor/ouvinte que o narrador sabe-se confuso. Dessa maneira, o leitor/ouvinte consegue identificar as traições do que é narrado e fica livre para dar crédito ao que considerar que seja verídico.
O romance de Chico Buarque trabalha, em sua estrutura de base, com uma lógica muito recorrente na literatura universal que é o fluxo de consciência. Essa é a base estrutural da narrativa de Leite Derramado, em que as memórias de uma linhagem familiar tradicional são rememoradas através do fluxo de consciência de seu narrador. Sem respeitar cronologia ou veracidade o narrador vai contando sua história à medida que ela vem surgindo em sua mente. Repete os fatos, mistura as datas, narra o mesmo assunto de modo diferente, assim como ocorre com qualquer narrativa que é rememorada a partir do tempo psicológico que não tem limites cronológicos.
Outro ponto interessante de se notar no livro de Chico Buarque é a temática que nele é trabalhada. As memórias do narrador versam sobre um único assunto: desbravar a saga de sua linhagem que vai de um grande auge à decadência. Essa decadência de famílias de grande nome vem sendo uma temática muito recorrente nos romances modernos.
Em Leite Derramado, nota-se um narrador que não se conforma com a trajetória decadente que percorreu a sua família. Por ter muita idade, esse narrador pôde acompanhar muitos dos momentos áureos de sua linhagem, mas também acabou por presenciar todas as derrotas porque passou a sua família até chagar à decadência. Acostumar-se com essa nova situação é um sofrimento para ele. Quando jovem teve dinheiro e prestígio. Hoje, velho e uma cama de hospital, depende do dinheiro e da boa vontade alheia. E de nada adianta dizer que é um legítimo Assumpção, pois este nome já não é mais reconhecido.
Tudo, desde a estrutura narrativa até a temática abordada em Leite derramado é preciso. Sem dúvida um livro em que o autor consagra seu estilo. Chico Buarque se mostra, nesse livro, não mais como apenas um grande compositor, mas também como um grande romancista.
A narrativa do romance possui um único foco que é a primeira pessoa. O narrador toma forma na personagem do ancião que vai nos contar a história da linhagem de sua família desde seus ancestrais mais antigos até os seus últimos descendentes com os quais conviveu. Logo de início, Chico Buarque joga com a credibilidade do seu narrador, e como conseqüência disso, com a credibilidade das histórias que este conta. Fica a cargo do leitor a decisão de confiar ou não nessas histórias rememoradas, e, por conseguinte, considerar ou não o narrador como confiável.
Muitos são os teóricos que põem em dúvida a credibilidade de um narrador em primeira pessoa, já que entendem que ele narra a história apenas pelo seu ponto de vista. Um exemplo clássico desta dúvida quanto à credibilidade da narrativa em primeira pessoa é o célebre romance de Machado de Assis, Dom Casmurro, em que o leitor jamais saberá se Capitu traiu ou não Bentinho visto que só se possui uma única versão da estória de amor. O leitor deste romance só tem posse do ângulo de visão de Bentinho acerca dos fatos que são narrados em primeira pessoa por um narrador marcado pelo ciúme, pela desconfiança e pela amargura.
Assim também é o foco da narrativa de Leite Derramado, em que é dado ao leitor apenas um ponto de vista acerca das memórias do ancião que narra a história; o ponto de vista dele próprio. Isso gera um outro fator que pode descredibilizar o narrador do romance ainda mais: o fato deste já ir em idade avançada. É uma questão cultural dos países ocidentais em geral o fato de não se dar crédito ao que dizem os idosos. Isso porque é considerado que, por serem de idade alta, são acometidos por eventuais doenças que podem prejudicar a memória, fazendo com que misturem fatos, datas, situações; e deixando suas narrativas sem crédito.
É dessa maneira que se mostra o nosso narrador. Deitado em sua cama no hospital, ele nos mostra que ocupa aquele lugar em virtude de doenças que lhe foram provocadas por conta da sua própria idade avançada. As lembranças lhe vêm embaralhadas e ele tem plena consciência deste fato, parando, por vezes, a narrativa para mostrar ao seu leitor/ouvinte a confusão da cronologia dos acontecimentos.
Essa consciência que tem o narrador de que suas lembranças lhe vêm embaralhadas, sem uma ordem cronológica dos acontecimentos, pode ser considera como um fator que gera credibilidade a ele. Isso porque essa noção de que a sua memória pode, em alguns momentos, atraiçoá-lo mostra ao leitor/ouvinte que o narrador sabe-se confuso. Dessa maneira, o leitor/ouvinte consegue identificar as traições do que é narrado e fica livre para dar crédito ao que considerar que seja verídico.
O romance de Chico Buarque trabalha, em sua estrutura de base, com uma lógica muito recorrente na literatura universal que é o fluxo de consciência. Essa é a base estrutural da narrativa de Leite Derramado, em que as memórias de uma linhagem familiar tradicional são rememoradas através do fluxo de consciência de seu narrador. Sem respeitar cronologia ou veracidade o narrador vai contando sua história à medida que ela vem surgindo em sua mente. Repete os fatos, mistura as datas, narra o mesmo assunto de modo diferente, assim como ocorre com qualquer narrativa que é rememorada a partir do tempo psicológico que não tem limites cronológicos.
Outro ponto interessante de se notar no livro de Chico Buarque é a temática que nele é trabalhada. As memórias do narrador versam sobre um único assunto: desbravar a saga de sua linhagem que vai de um grande auge à decadência. Essa decadência de famílias de grande nome vem sendo uma temática muito recorrente nos romances modernos.
Em Leite Derramado, nota-se um narrador que não se conforma com a trajetória decadente que percorreu a sua família. Por ter muita idade, esse narrador pôde acompanhar muitos dos momentos áureos de sua linhagem, mas também acabou por presenciar todas as derrotas porque passou a sua família até chagar à decadência. Acostumar-se com essa nova situação é um sofrimento para ele. Quando jovem teve dinheiro e prestígio. Hoje, velho e uma cama de hospital, depende do dinheiro e da boa vontade alheia. E de nada adianta dizer que é um legítimo Assumpção, pois este nome já não é mais reconhecido.
Tudo, desde a estrutura narrativa até a temática abordada em Leite derramado é preciso. Sem dúvida um livro em que o autor consagra seu estilo. Chico Buarque se mostra, nesse livro, não mais como apenas um grande compositor, mas também como um grande romancista.
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